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Sakaneno João de Deus,professor de Dança.

Publicado por Nkemo Sabay activado 6 Julio 2010, 10:02am

Etiquetas: #Cultura

Sakaneno João de Deus é uma referência incontornável quando se fala de dança em Angola. Grande parte dos bailarinos, hoje conhecidos, já passou pelas suas mãos. Foi director da Academia de Dança em 1989, 1990, 2000, 2001, 2002 e 2003. Respeitosamente todos o tratam por “professor Sakaneno”.

Isso deve-se, não apenas ao facto de ensinar dança, mas também por ser um verdadeiro exemplo, um mestre da vida, alguém com uma experiência incrível e um percurso fascinante.

 

O Começo.

Antes de começar a dançar, gostava de tocar e ensinar. Tocava batuque. “Na região da Damba ou na Songa, todos sabem que Sakaneno era um grande percussionista. Antigamente, não havia essa paixão pela dança mas a vida é mesmo assim, quem toca dança, não é?”, brincou bem-humorado. Começou a ensinar dança com apenas 10 anos, na aldeia em que nasceu, no Uíge. Em 1978, trocou a calma dessa mesma aldeia pela agitação de Luanda. Quando chegou à capital começou logo a frequentar aquele que seria o seu primeiro curso de instrutor de arte. Curso ministrado no Teatro Avenida, pelo malogrado pintor Vittex.

O conhecido pintor convidou alguns instrutores cubanos para vir a Angola ensinar no primeiro curso, que englobava os vários domínios da arte, e Sakaneno foi encaminhado para a dança.

Nessa altura, estava longe de pensar que aquela formação o levaria para fora de Angola. No ano seguinte, a sorte bateu-lhe à porta quando o secretário de estado ofereceu bolsas para alunos de teatro, música, artes plásticas, etc. “Tive a sorte de conseguir uma dessas bolsas. Então partimos para Cuba no dia 15 de Outubro de 1979 onde frequentei o curso superior de artes. Terminei em 1986 e voltei para Angola. Antes de voltar fiz ainda em Cuba alguns trabalhos, quer a nível da escola onde estudei como em orfanatos. Cheguei a exercer o ensino artístico. Trabalhei com crianças órfãs vindas da Nicarágua e outros países”, lembrou.

 

O REGRESSO a CASA

Em 1986 regressou a Angola e foi, de imediato, colocado a dirigir o grupo Amador de Dança, um grupo apontado pelo Ministério da Cultura para representar o país em actividades culturais. Tempos mais tarde, o grupo desfez-se e duma junção com outros dançarinos nasceu o Experimental de Dança e, mais tarde, o grupo Ballet Clássico. “Considero-me um homem afortunado porque acompanhei todo esse processo”, frisou. Nos dias que correm, trabalha como professor e coreógrafo na academia de dança, onde actua desde 1986. Trabalhar nos grupos de dança como excelente profissional que era, agradava-lhe mas não era nada fácil conciliar essa actividade com o ensino artístico na academia.

 

CONQUISTAS

O primeiro prémio que ganhou foi-lhe atribuído pela União dos Artistas e Compositores, UNAC, o prémio Identidade.

Foi ainda o primeiro a organizar o Festival do Dia Mundial da Dança no país. “Naquela época fui muito contrariado. Várias pessoas chegaram a chamar-me maluco. Tive de solicitar ao Conselho Internacional de Dança, do qual hoje sou membro, para que me mandasse um historial do Dia Mundial da Dança com a autorização para o publicar. Só assim consegui fazer com que acreditassem que realmente existia um Dia Mundial da Dança”, frisou.

Em 1989, em Portugal, houve a reestruturação da UNAC, onde foi convidado para fazer parte da comissão organizadora. Foi indicado secretário nacional para a acção cultural da UNAC.

Entre os seus alunos, fizeram parte a primeira dama da República, Ana Paula dos Santos: “O facto de ter ensinado a primeira-dama da república é um grande orgulho que nem encontro palavras para descrever”.

O Fenacult, foi um dos seus primeiros trabalhos e o primeiro festival cultural organizado pelo Ministério da Cultura. “Fui o autor da coreografia de abertura e do fecho, onde participaram muitos dançarinos entre eles as Gingas do Maculusso que na altura tinham os seus 8, 9 anos e fizeram parte das minhas coreografias”.

Quando o assunto são festivais, diz terem sido tantos que já perdeu a conta. “A maior parte dos festivais que se realizam em Luanda ou que têm como finalidade representar o país, quase todos tiveram sempre a mão do professor Sakaneno. Sempre fui um dos bailarinos”, rematou.

 

CRÍTICAS EFECTIVAS

Comparando as actividades que existem actualmente com as que existiam outrora, o professor não esconde o seu desapontamento. “Naqueles tempos sempre que chegava o dia mundial da dança, havia sempre um workshop ou um seminário de 15 a 20 dias, onde participavam inclusivé os bailarinos das províncias. Hoje, em vez de se dar continuidade a isso, estagnamos”.

Sakaneno lamenta ainda a ausência de uma escola básica de dança: “Não faz sentido termos uma escola média quando não existe o ensino básico. Podemos fazer tudo mas sem a formação de base, não estamos a fazer nada! Deixo aqui o apelo para que haja mais abertura nesse sentido. É urgente a criação de uma infra-estrutura para que sejam vocacionados e bem formados os nossos futuros talentos da música e da dança. Quer o estado, quer o privado devem lutar para que isso se torne uma realidade, senão a cultura tem muito a perder nos tempos que se avizinham. Eu gostava de dar um maior contributo à cultura, porque amo Angola e quero ver o desenvolvimento deste país e o maior contributo que posso dar é formar todos aqueles que têm vocação, mas como o fazer sem uma escola de base? Não podemos continuar a trabalhar no empirismo. O bailarino sem formação é um bailarino morto. Não tem a visão, não tem noção de nada. O que é que esperamos daqui a 5 ou 6 anos? Vão ser pessoas frustradas, vão fatigar-se, estarão completamente fartos de dançar porque não encontraram nenhuma via de se expandir, de crescer. Há vários bailarinos que começaram comigo há muitos anos, hoje têm a idade que têm e não têm nenhuma outra profissão. A profissão que tiveram um dia está estagnada. Já não dançam porque há gente mais jovem com mais energia, flexibilidade, etc. E não podem fazer mais nada. Por isso é preciso que se criem as escolas, quer sejam estatais ou privadas. Vejam o que aconteceu com a educação, esse é um bom exemplo. A educação expandiu muito porque se instalou uma rede de escola privadas que se fez sentir em todo o país. Até nos bairros mais pobres encontramos colégios privados e legalizados. Isso, claro, tem uma repercussão na formação dos alunos. A dança passa pela mesma via, ou pelo menos deveria”.

 

Experiência do CAN

Um dos trabalhos mais marcantes e mais recentes foi a coreografia de abertura do CAN. “Foi emocionante. Recebemos os abraços do chefe de estado, o engenheiro José Eduardo dos Santos, algo que não esquecerei. Sinto-me grato por ter tido essa oportunidade e aproveito para mandar um abraço e agradecer a todos os bailarinos que fizeram parte desse trabalho, a todos os monitores, aos assistentes que me aturaram durante quatro meses. Felicitações pelo excelente trabalho. Mas, mais uma vez, nem tudo são rosas e deixo ficar aqui um apelo ao Ministério da Cultura para que se dignifiquem os bailarinos. Sei que trabalharam todos na base de um contrato mas nós não valemos pelo contrato, nem tudo é feito com base no dinheiro. Acho que o mínimo que devia ser feito era que nos fosse entregue um certificado de participação. Como é que esses bailarinos vão contar a história do CAN sem uma recordação. Apenas um papel, um certificado, um diploma, algo que comprove que realmente participaram naquele que foi um dos maiores eventos decorridos em Angola. O CAN foi um trabalho exemplar a nível de África, quiçá a nível mundial. Quem assistiu à abertura viu o real potencial de Angola como um país de futuro. Um país que está preparado. Lamentavelmente, o CAN acabou e já não precisam dos bailarinos, é necessário que nós na cultura mudemos as nossas mentalidades. Os bailarinos não podem ser vistos como sujeitos que quando se precisa deles pega-se e coloca-se a dançar, não! É preciso que sejam dignificados porque é uma profissão árdua que exige muito do nosso tempo e dedicação… Talvez o CoCan também devesse reflectir acerca disso para que esses bailarinos não sejam esquecidos”, esclareceu.

Um dos projectos do bailarino, professor e coreógrafo é trabalhar com outros professores africanos para expandir mais a dança tradicional angolana.


O facto de ter ensinado a primeira-dama da república é um grande orgulho que nem encontro palavras para descrever.

 

Recordar o áfrica

O África foi um grande bailarino, mais que isso foi um filho para mim. Conheci-o no Petro Atlético onde fui professor. Dali puxei-o para a academia de dança, onde o tive sempre do meu lado. Depois disso levei-o para Portugal. A ideia era que ele ficasse por lá e aprendesse o máximo mas ele não quis. Nunca me hei-de esquecer, ele disse-me “Não professor. O meu lugar é ao lado do professor” e regressou comigo.

Quando adoeceu veio cá a academia a minha procura, pedir ajuda mas, infelizmente, não me encontrou cá. Quando recebi a notícia, fui visitá-lo no Hospital do Prenda já era muito tarde. Lamentavelmente, a vida é assim. Espero que a sua alma descanse em paz e devo dizer que Toni foi um filho para mim. E que foi um grande exemplo, passou por Portugal e pelo Brasil. Aliás quem tentar conversar com vários membros de grupos de dança sobre a história da dança deste país, vai ser sempre mencionado o nome de Toni África mas infelizmente Deus não quis que ele continuasse do nosso lado.

Perfil

Nome Sakaneno João de Deus Idade 48 anos Natural Uíge Passatempo Ler, escrever e navegar na internet Estado Civil Vive maritalmente com a mulher há 18 anos Filhos 4 (3 meninas e 1 rapaz) Música Urbana, é da nossa raiz Cantor Dom Caetano Profissão Professor de dança e coreógrafo Prato favorito Moamba de repolho, carne de porco grelhada e funji

 

Hadjalmar El Vaim/ opais.net

 

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