Dimanche 3 juin 2012 7 03 /06 /Juin /2012 03:43

 

 

Por Walter Gomes

 

 

Damba-com-asfalto.jpg

                                 Aspecto actual da vila da Damba com asfalto ( foto de J.A)

 

A falta de três médicos especialistas em oftalmologia e ortopedia e de técnicos de laboratório está a criar sérias dificuldades ao funcionamento das unidades sanitárias do município da Damba, província do Uíge, disse ontem ao Jornal de Angola o chefe da repartição municipal de Saúde.


Lumueno Filipe disse que, além da necessidade do reforço de médicos e técnicos de laboratórios, a localidade necessita de mais 35 enfermeiros e parteiras, para que possam dar resposta à grande procura. O sector é assegurado por 63 enfermeiros, insuficientes para darem resposta às necessidades. A intenção, explicou, é pôr um médico em cada uma das comunas.


“Actualmente, trabalhamos com apenas um enfermeiro em cada posto de saúde, facto que tem vindo a motivar as enchentes que se verificam nas unidades sanitárias locais. Aliás, por essa razão, os técnicos de saúde trabalham mais do que deviam”, realçou.


Desde o alcance da paz, em 2002, o município da Damba beneficiou de um hospital municipal de referência, 14 postos de saúde e residências para albergar enfermeiros e médicos, nas diversas localidades que compõem o município.


Os investimentos feitos contribuíram para a melhoria do atendimento à população local, que anteriormente era obrigada a percorrer centenas de quilómetros para ter assistência médica e medicamentosa. As infra-estruturas sanitárias existentes no município da Damba, segundo o chefe da repartição municipal de saúde, foram construídas no âmbito dos Programas de Investimentos Públicos, Desenvolvimento Rural e Combate à Pobreza.


Apesar da melhoria já alcançada no sector, a repartição municipal, em colaboração com a administração municipal, está apostada em alargar e aproximar os serviços de saúde das comunidades.


O chefe da repartição municipal de saúde, Lumueno Filipe, lembrou que no município estão a ser construídos quatro novos postos de saúde e a ser reabilitados outros que não oferecem condições para uma prestação de serviços de qualidade, sobretudo nas comunas de Mpete Nkusso e Lêmbua e nas localidades de Quimbunga Pedro, Madimba e Mbemba Cazumbi.

As patologias mais frequentes na região são as doenças respiratórias agudas, malária, sistossoma mansoni, fístulas obstétricas e diabetes.


Localizado a 197 quilómetros à Norte da cidade do Uíge, o município da Damba possui uma extensão territorial de cerca de 17.920 quilómetros quadrados. Possui quatro comunas – Nsosso, Nkama Ntambo, Mpete Nkusso e Lêmbua – 37 regedorias e 270 aldeias.

 

 

                                                                                                       J.A

 

 

 

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Samedi 2 juin 2012 6 02 /06 /Juin /2012 03:55

 

 

Por António Capitão| Quimacungo


jorEmília Caputo (foto de A. Capitão)

 

Um grupo de cem parteiras tradicionais que actuam nas regedorias de Cassexe, Quilevo, Camancoco, Quingua, Quica, Calumbo e Quimacungo, no município do Uíge, participaram numa acção de formação destinada a apetrechá-las de novas técnicas de parto seguro fora das unidades hospitalares.


Durante a formação de dois dias, as parteiras tradicionais assistiram a demonstrações práticas sobre os cuidados que devem ter em relação às parturientes e aos recém-nascidos no período pós-parto. Além disso, receberam conhecimentos sobre questões relacionados com o aleitamento exclusivo, vacina antitetânica, doenças diarreicas agudas, malária e outras patologias que afectam as mulheres grávidas e crianças.


A supervisora das parteiras comunitárias do município do Uíge, Rosa António, afirmou que o ciclo formativo, além de fornecer conhecimentos e técnicas apropriadas para a realização de partos, visou igualmente contribuir para a redução da mortalidade materno-infantil, nas comunidades rurais.

 

Esclareceu ainda que as parteiras tradicionais foram orientadas no sentido de transferirem para as unidades hospitalares de referência da província todas as parturientes que apresentem prognósticos de parto de risco e lembrou que o objectivo da formação é contribuir para o combate à mortalidade de mulheres e crianças durante a gestação e depois do parto.


As parteiras receberam kits de trabalho compostos por tesouras, lâminas, bisturis, fios para corte do cordão umbilical, compressas, panos para cobrir os recém-nascidos, aventais, materiais gastáveis e de higiene, que vão contribuir para a realização de partos mais seguros e com melhores condições higiénicas.“Com os conteúdos que abordámos com as parteiras e os equipamentos entregues, acreditamos que os parto nestas comunidades vão ter melhores condições, tendo em conta que elas já exercem a profissão há anos.


Por isso, temos a certeza que o nosso apoio vai contribuir para que as parteiras tradicionais realizem trabalhos com maior profissionalismo”, realçou Rosa António.


Emília Caputu, anciã que exerce a profissão há mais de 50 anos, elogiou a iniciativa do governo da província e destacou os meios de trabalho que ela e as colegas receberam no final do curso, além dos conhecimentos adquiridos.  Mensalmente, a anciã realiza entre 25 a 30 partos.Durante os trabalhos, a parteira tradicional conta com o auxílio de quatro jovens. “Além dos trabalhos de parto que realizo, também faço tratamento tradicional às mulheres com dificuldades em engravidar. E quando têm sucesso no tratamento, preferem que seja eu mesma a fazer o acompanhamento da gravidez, até à realização do parto”, disse.

 

 

                                                                                                    J.A

 

 


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Samedi 2 juin 2012 6 02 /06 /Juin /2012 02:22

 

 

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                                          O Secretário geral da F.A.B, Tony Sofrimento.

 

 

O Secretário-Geral da Federação Angola de Basquetebol (FAB), Tony Sofrimento, informou que o extremo do Recreativo do Libolo, Luís Costa, pediu dispensa da selecção nacional que se prepara para o torneio pré-olímpico, alegando razões pessoais.


Uma justificação que não convence, embora o próprio jogador não tenha esclarecido os motivos da sua recusa. O dirigente federativo esclareceu que o jogador endereçou uma carta à FAB a solicitar dispensa dos trabalhos, por motivos particulares, o que levou o seleccionador, José Carlos Guimarães, a convocar Edson N’doniema, também do Libolo.


A selecção angolana tem treinado em Luanda, no pavilhão 28 de Fevereiro, parte este fim-de-semana
para Espanha onde vai jogar com as selecções das Astúrias e Países Bascos.


Dia 18 o grupo segue para o Brasil, onde, em oito dias, fará apenas um jogo com equipa a indicar. Poste-
riormente, já na Venezuela, Angola disputa um torneio, de 27 a 29 deste mesmo mês de Junho, com as selecções da Jordânia, República Dominicana e a anfitriã.


A sua estreia no pré-olímpico, em Caracas, será dia 2 de Julho, diante da Macedónia, dois dias depois de-
frontam a Nova Zelândia, na última jornada da primeira fase deste torneio qualificativo aos Jogos Olímpi-
cos de Londres2012.

 

 

                                                                                                    N.J

 

 


Par Muana Damba
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Vendredi 1 juin 2012 5 01 /06 /Juin /2012 11:47
 

Por Dr José Carlos de Oliveira.

 

 

 
 
 
O assunto pode não ser inédito no âmbito desta publicação, mas é seguramente bastante invulgar a descrição que se segue. Já lá vão mais de quarenta anos, porém alguns factos das nossas vidas ficam de tal modo gravados na memória que por muito teimarem em ficar vivos dificilmente se apagam. Acontece de uma forma geral a todos nós.
 
Trata‑se de uma descrição que tem a intenção de recordar momentos excepcionais vividos pelas populações do Norte de Angola, nos últimos anos da década de 50 e princípios da década de 60 do século passado.
 
Ao repousarmos a vista sobre determinadas fotografias, factos, que julgávamos adormecidos, acordam as nossas recordações. Há bem poucos dias fui dar com uma fotografia que tirei com um amigo negro, o Pazito (corruptela de paizinho), por volta dos meus dez anos. Durante cinquenta anos falei dele, mas a sua imagem já quase se tinha esfumado da memória. Porém, bastou‑me encontrar a fotografia e logo me vieram à lembrança pormenores que de outro modo jamais recordaria. O mesmo acontece quando alguém desfolha um álbum de família. Por vezes dá‑se o caso de não ter vivido determinados momentos, mas de tanto ouvir falar daquelas pessoas e daqueles tempos, tudo se passa como se tivesse vivido os acontecimentos.
 
Antes de me debruçar sobre a figura do meu amigo kasengo (leia‑se Kas­sen­go) e das suas raízes, seja‑me permitido situar‑me no contexto. Abordarei uma forma do conceito de Pátria (no sentido de património espiritual e cultural dos nossos pais). Dando um significado consensual (não confundir pátria com estado, um conjunto de comunidades vivendo sob as mesmas leis) onde seja perceptível uma alma, isto é, uma sensibilidade, uma inteligência e uma vontade a um só tempo. A Pátria exige um ideal que se fundamenta em lembranças dum passado comum, das suas glórias e das suas aflições; é verdade que o sentimento de pátria leva ao conflito de umas nações contra as outras... A seguir debruçar‑me‑ei sobre o conceito de País, não só no sentido de reino, império ou república onde se nasceu, mas sobretudo na ideia de “nosso chão”.
 
Fui para Angola em 1943, com apenas quatro anos de idade, na companhia de meus pais. Foi lá que aprendi que Angola, “a Minha Terra”, fazia parte de um país que se chamava Portugal. Camões era o seu grande poeta, tinha escrito uma epopeia “Os Lusíadas” e dele fixei, entre outros, dois episódios: o de Inês de Castro e o do tremendo Adamastor (canto quinto); este último fazia parte dos textos de português da minha 4ª classe e reza assim:
“... Porém já cinco Sois eram passados
Que dali nos partimos cortando
Os mares nunca d’outrem navegados,
 Prosperamente os ventos assoprando
Quando uma noite estando descuidados...” (canto V,est. 37)
 
Foi lá, que ouvi, pela primeira vez, o nome do Sporting, do Benfica e do Porto. Havia um negro, chamado Matateu, que foi glória do futebol metro­politano. Por esse tempo aprendi a ser benfiquista e ouvi falar do Eusébio, a Pantera Negra do futebol europeu.
 
Na escola primária fiquei a saber como amar a Deus sobre todas as coisas e a rezar o Padre Nosso e a Avé Maria e fiz a primeira comunhão. Recordo, com muita saudade, os meus amigos de infância do muceque Rangel, do Kaputo e do Sambizanga que me ensinaram a fazer gaiolas de bordão, a caçar passarinhos, peitos celestes e januários... Com eles aprendi a colocar o visco em finas hastes, onde os pássaros iriam descuidadamente pousar. Armei alçapões e Kalobos nas mesmas gaiolas, fiz fisgas com borrachas de câmaras de ar, tornei‑me mestre a fazer papagaios e a saber, quando ia às matinées do cinema Nacional, que havia um país chamado América onde existiam cowboys, índios e bandidos.
 
Passado o tempo da Escola Comercial, meu pai obrigou‑me a ir para o Mato (a 700 quilómetros da Capital), como prémio de ser um bom aluno, em vez de continuar os estudos em Lisboa. Assim cheguei à povoação comercial do Quibocolo, onde conheci o meu amigo Kasengo. Pela sua mão, rapidamente aprendi a deixar de ser menino e comecei a “ler” a arte e as manhas da caça. Se existem mestres em seguir pistas de animais, distinguindo pela peugada se o animal caminha tranquilo ou se o faz assustado, também os mesmos mestres percebem também pelos vestígios deixados (por mais que disfarcemos) vasculhando nas cinzas apagadas, nos detritos comestíveis deixados, neste caso observando se os restos já estão secos, ou, ainda húmidos de saliva, nunca perdendo o sentido da orientação do vento, mesmo que pareça não haver uma réstia de aragem.
 
O caçador negro em África é antes do mais um Nsongila Nzila o que mostra o caminho (no dizer dos kikongo) e que por norma não se descuida pisando as peugadas já lidas (não vá ter que as reler, buscando pormenores que lhe tivessem passado despercebidos), faz a sua leitura de lado, um ou dois passos atrás dos sinais a ler, utilizando, para tal, uma pequena haste. Aplica ancestrais conhecimentos como sejam o impregnar a roupa que leva vestida com o odor de um animal previamente escolhido, elimina assim o seu próprio odor. Com este saber, não interfere no ambiente como estranho, tudo se passa como se ele lá não estivesse. Ao Kasengo devo estes conhecimentos. Nunca o vi utilizar cães, atitude muito estranha se levarmos em linha de conta que o negro da África dos Matos adora cães. E tem razões para isso. Não há sanzala onde não se oiça pelo menos uma boa dúzia de cães. Nestas circunstâncias o cão frequentemente deixa de ser alimentado pelo seu dono, tem que se governar. E governam‑se como podem: caçando.
 
Tudo isto o Kasengo sabia e não utilizava cães! Os animais têm os seus terrenos favoráveis e desfavoráveis, têm o seu retiro numa mata própria e nem todas as presas preferem os mesmos terrenos. Às vezes, no meio do capinzal (de mais ou menos metro e meio de altura) dizia‑me para perscrutar, subindo ao cimo de qualquer pequena árvore. Bastava que se visse acima do capim um ou dois metros, que olhasse com muita atenção o capim e verificasse uma pequena ondulação. Isso seria sinal de que algo se movia. Mais tarde, de 1961 a 1963, apliquei estes conhecimentos que de muito me serviram...
 
Embora este artigo seja dedicado ao Kasengo, abro aqui um parêntesis para me lembrar de ensinamentos de outro mestre: o David (neste momento é uma autoridade governamental importante no distrito do Uíge) dizia‑me ele que nenhum caçador deixa de querer tanto aos seus cães como a si mesmo. O caçador nunca se esquece que pode cair na sua própria armadilha. Jamais se esquece da psicologia da presa se for perigosa. Pode não estar morta, e, sem nenhum aviso, atacar de repente. Nestas circunstâncias o cão é dum valor inestimável. Rodeia com a maior precaução o sítio onde sabe que o animal está acoitado. Volta atrás dando sinal de perigo, levando a presa a mexer‑se o que obriga o tronco armadilhado a dar sinal.
 
Quando o David era jovem e armava o seu laço, tendo escolhido o pau que serviria de tensor, fazia a cama onde o animal se debruçaria para cheirar o sinal. Aí despejava o conteúdo de uma garrafa que para o efeito trazia consigo (urina de cabra recolhida em época de cio). Sabia que o seu odor se propagava com grande intensidade atraindo os machos ao local. Era‑lhe depois muito fácil verificar, à distância, se o animal tinha caído na armadilha. Bastava olhar para o sítio, onde estava o tronco escolhido para tensor, e ler os sinais. Quando caçavam em grupo eram escolhidos para ir à frente aqueles que conseguissem vislumbrar movimentos estranhos o mais longe possível. Eram chamados “Salu Ya Mubemba” o que traduzido à letra será “o trabalho da águia”. Muitos leitores ao passarem os olhos por estas linhas recordar‑se‑ão de momentos extraordinários...
 
A distância da povoação do Quibocolo ao sopé da Serra da Kanda, núcleo geo‑histórico da UPA, andava pelos 15 quilómetros. Foi, provavelmente, da povoação Makanda que, internamente, saíram as ordens para o início das actividades da UPA, em Março de 1961. Lá casei e continuei a viver até que o ano de 1975 ditou o regresso. Em 1992 fiz uma breve visita a Angola, para rever velhos amigos e actualizar conhecimentos sobre diversos temas acerca dos Kikongo (aqueles que falam a língua kongo) do norte de Angola.
 
A vivência escolar (com meninos negros e mestiços, tanto pertencentes às elites urbanas como às tribais) e a posterior convivência de duas décadas com as populações da tribo Bazombo permitiram o aprofundamento do conhecimento do ambiente local, dos usos e costumes. A força das circunstâncias levou‑me a aprender a falar, ler e escrever a língua Kikongo, conhecimento que me valeu o ângulo de visão e de opinião “fonte” para mais tarde intensificar e sistematizar os “Estudos Africanos”na especialização de estudos Políticos e Sociais.

 

Fui incorporado, para prestação de serviço militar no ano 1959, em Nova Lisboa, sendo colocado em Maquela do Zombo (fronteira norte de Angola). Desmobilizado em Dezembro de 1960 e reincorporado novamente em Abril de 1961, prestei serviço nas zonas mais conflituosas, até Janeiro de 1963.
 
A Maria Cândida, minha mulher e companheira desde a primeira hora da guerra colonial, sempre me ajudou a reflectir e ponderar sobre os assuntos mais delicados que ambos vivemos. Com grande frequência, e sempre que elaboro textos com a finalidade de serem publicados, recorro ao seu invulgar senso de crítica. Passamos muitas horas a recordar Angola... Tem toda a paciência do mundo para me “ver” deambular pelas recordações do passado e, não raras vezes, relendo os textos corrige alguma imprecisão. Este caso não fugiu à regra.
 
Maquela do Zombo é a capital do Concelho do Zombo, do antigo distrito do Uíge. Está situada no extremo Norte de Angola, junto à fronteira com a República Democrática do Congo. A região tem uma altitude média superior a 900 metros, com grandes manchas florestais que, na direcção Damba‑Maquela do Zombo, apresentam, de quando em vez, frondosas matas. Através de densas neblinas matinais ficamos impressionados com esse mar encapelado de nuvens a perder‑se de vista. De repente abre‑se a cortina e pasmamos pelo aspecto sublime e grandioso da vegetação, comprimida em vales profundos, onde se encontram grandes árvores e, no seu cume, volta a ver‑se o denso nevoeiro. A água é frequente, abundante e de óptima qualidade, correndo tanto em leito de rocha como em areia limpa. O clima é altamente benigno. Não foi por acaso que lá se instalou, desde 1899, a Missão Baptista do Quibocolo. Perto também, o Governo Português criou a povoação comercial do Quibocolo. Fica a 1 100 metros de altitude, os seus terrenos são riquíssimos, as colheitas de milho, feijão, amendoim, leguminosas etc., são de especial qualidade. A língua falada é o Kikongo.
 
Entre os Bakongo, povo de origem Bantu (designação aplicada a um grande grupo etnolinguístico negro da África Meridional, constituído por cerca de 150 milhões de pessoas e que vivem ao sul do Saará, com excepção de pigmeus, bosquímanos e hotentotes). O termo bantu é demasiadamente conhecido como significando “homens”, generalização que se refere a povo, população, gente. O singular da palavra é Muntu, de onde se vai buscar o radical Ntu, que é universalmente aplicado pelos cerca de trezentos dialectos espalhados pela África Negra. O que se não refere por norma é que 1º Muntu deve ser traduzido por Pessoa Human; Ba, por sua vez, tal como foi mencionado, como “povo”, e Ntu finalmente, por cabeça, o que sugere Bantu: povo da frente, e, seja‑me permitida a similitude: Bantu “povo escolhido.

 
 
A Natureza entra toda em vibração. “O semelhante age sobre o seme­lhante”, o ser humano pode reforçar directamente outro ser humano, porque a força vital, concedida ao homem, pode influenciar directamente no ser de forças inferiores. O dinamismo espiritual do povo Bakongo deverá ser analisado em função do seu universo mental. Nesses espaços, e não só, todos os assuntos que se prendem com o seu cosmos começam na sua própria casa... O seu conceito familiar matricêntrico, pauta‑se por normas diferentes das do Ocidente. Nestas populações de economia agrícola, as relações de parentesco têm como base os irmãos da mãe, esta e os seus filhos. Os filhos dum casal têm como “mãe grande” a irmã da mãe, se a mãe tiver uma irmã, por seu lado aquela que no Ocidente, é considerada a mãe, lá não é senão a “mãe pequena”.
 
Isto não diminui o amor da mãe biológica, embora, por vezes, superfi­cialmente observadas pareça não dedicarem o mesmo afecto aos filhos que as mães brancas. Os sinais exteriores de meiguice e mesmo as lágrimas que estas vertem quando vêem os filhos maltratados, doentes, ou mortos parecem indicar um menor amor maternal. Não é assim. Em caso de perigo eminente, a mãe preta põe a salvo as suas crias. Se têm pouca comida reserva‑a só para eles e fá‑lo com alegria e satisfação. Lá no meio do mato qual é a preta que deixa, por dias ou por horas, os seus filhos, nos primeiros três anos, entregues ao cuidado de estranhos? Muito poucas são as ocasiões.
 
O pai grande é o tio, irmão da mãe. Tudo isto se considera por via uterina. O marido é sempre considerado o “pai pequeno”, nunca tendo os mesmos direitos que a mãe exerce sobre os filhos. De igual modo se processa o direito sucessório. Apesar do que muito vagamente se deixa dito, sugere‑se a maior cautela com as generalizações dos usos e costumes dos Bakongo. Existe sempre a necessidade de perscrutar todos os meandros da sua política familiar.
 
Os Bantu tomam a sua cultura como parte da religião. De uma forma geral, os Negro‑Africanos consideram a religião como elemento primordial da sua cultura. A experiência religiosa Bantu é um lenho demasiado bravo para que se deixe penetrar facilmente por enxertos, venham eles de onde vierem. O mesmo acontece com outras milenares religiões.
 
Para o Bantu e para a sua comunidade, viver é participar num drama religioso, e este ponto é fulcral, porque significa que vive no seio de um universo religioso. O padre Tchouanga explica que “Todos os actos da vida são expressões teoló­gicas”. A característica essencial da religião dos Negros reside nas ligações da religião com a vida quoti­diana. Daí que seja pertinente a introdução do Conceito de magia. Não é nada fácil a tarefa de encontrar um fio condutor que leve os leitores a entender este tipo de discurso e, assim sendo, sugiro a seguinte ideia de magia. Significa tanto criação como destruição. Criação duma primeira forma e principalmente a criação da forma suprema que encerra em si todas as outras, para posteriormente as libertar. A magia é exigida pela interacção vital. Brota como uma necessidade básica. É como que uma solução, conquanto resulte ambivalente visto que explica, propaga e remedeia o mal gerando também o medo.


 

KIZEYIKOMO - PACA DAVIS

 

 


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Jeudi 31 mai 2012 4 31 /05 /Mai /2012 05:11

 

 

CONTACTO DE CULTURAS

                                              NO CONGO PORTUGUES

  ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO.


 

Por Dr MANUEL ALFREDO DE MORAIS MARTINS. (Administrador da Damba 1945-1953).



Alfredo de Morais Martins.

 

 

Contacto –C ( NZILA BAZOMBO)



Mais tarde, após a Conferência de Berlim e a divisão territorial que cindiu o grupo étnico bakongo, passou a fazer-se a ocupação comercial do interior do nosso Congo, nalgumas regiões antecedendo a militar e administrativa, e surgiram estabelecimentos comerciais por toda a parte, nos próprios centros de produção. Os mercados e a actividade comercial dos Congueses diminuíram de importância, em certos aspectos, mas não se extinguiram de todo. Os mercados principais, aqueles que concorriam comerciantes portugueses, desapareceram ou perderam, como era natural, as suas características anteriores, e os secundários, em quase todas as regiões, retomaram a finalidade que lhes era peculiar nos tempos anteriores às relações comerciais com os Europeus. Passaram a servir apenas para compra e venda de géneros de subsistência de consumo local e de produtos das indústrias tradicionais. Noutras
regiões, porém, mantiveram certa importância por razões que variam uma das outras. Àqueles que estavam próximos dos centros europeus em formação, como Léopoldville e Brazzaville, passaram a acorrer grandes quantidades de géneros agrícolas e de criação que os intermediários adquiriam para abastecimento da população citadina. No nosso Congo, em grande parte do concelho do Zombo e no posto sede da Damba, apesar da existência de estabelecimentos comerciais, os mercados mantiveram-se como centros importantes de negócio, mesmo para os artigos de importação vendidos nas lojas. A sua tradição estava tão arraigada que sobreviveram, e este carácter de perdurabilidade, em circunstâncias que deviam contribuir para a sua extinção, define bem os mercados como verdadeira instituição, dando a este termo o seu significado sociológico. Nas áreas administrativas acima citadas, o espirito comercial é a característica dominante dos seus habitantes que se tem mantido, adaptando-se
com facilidade espantosa a todas as evoluções que a economia regional tem sofrido. O que sempre lhes tem interessado é o negócio em si próprio, sejam quais forem as tendências do mercado. Colocados, como já dissemos, numa zona central donde partiam os caminhos das caravanas para S. Salvador e, mais tarde, também para Nóqui e para os portos do litoral, e donde irradiavam também as vias de penetração comercial para o Norte, para o Pumbo, para o Cuango e até para além deste rio, estavam em óptimas condições para servirem de intermediários e aproveitaram-se.

O espirito comercial dos bazombo e o seu papel de elos de ligação nas relações comerciais com as regiões mais afastadas foram bem observados pelo grande missionário padre Barroso, como se deduz do seguinte passo de um dos seus escritos. “ Os géneros coloniaes que afluem a S. salvador são o marfim e a borracha, com algum café vindo do Bembe.

“ Os dois artigos primeiros mencionados, saem da região vizinha do Stanley-Pool e mais ainda da região a E., compreendida entre as bacias do Quango e Cassai, e às vezes de mais longe. Em geral os mexicongos (habitantes da região de S. Salvador) não vão comerciar a estas regiões; os azombo, raça eminentemente traficante, servem-lhe de intermédio.

“ O indígena do Congo em geral, ou compra a borracha aos capos nas grandes quitandas (mercados) do Zombo, ou entrega as suas fazendas aos Zombos para que lh’as vão permutar ao Pumbo (região de Tecula) à Jaka, e outros sertões situados a N. e NE.

“ Os indígenas destas regiões têm pronunciada tendência para o negócio; talvez esta a sua
feição característica”.

Os mercados em todo o Congo, abstraindo da referida evolução derivada das alterações sofridas pelo comércio de exportação, tinham e têm características especiais e dignas de nota, que devem vir das recuadas eras em que a instituição se criou e se têm mantido quase incólumes até aos nossos dias, pelo menos nas áreas onde se radicaram mais firmemente e que são, precisamente, as que melhor conhecemos: Zombo e Damba.

São conhecidos vulgarmente por quitandas, mas o seu nome verdadeiro é nzandu, que também significa “lugar neutro”, “lugar de igualdade”, “ lugar de divertimento”.

A sua criação e o seu funcionamento obedeciam a regras fixadas pelo costume. Nenhum se podia fundar sem prévio acordo dos chefes vizinhos, que, em conjunto com o chefe interessado, escolhiam o local e proclamavam as leis que deviam reger o seu funcionamento.

Essas leis diziam respeito especialmente à liberdade de acesso, à liberdade de comércio, à proibição da entrada a indivíduos armados, ao acatamento dos preços estipulados para certos artigos e a tantos outros pormenores, tudo tendente a dar ao mercado um ambiente de sossego, onde não eram permitidas rixas nem altercações e, mais ainda, a transformá-lo em zona neutra, inviolável, gozando de certo modo um privilégio de extraterritorialidade. Havia penas severas para os que não cumpriam essas leis, desde multas pesadas para os brigões até á condenação à morte para os que nele cometessem acções desonestas ou roubos.

Localizavam-se sempre em sítios elevados, bem arejados e a certa distância da aldeia.

A sua direcção competia ao “chefe do mercado”, que marcava o momento do seu início, vigiava os preços, mantinha a ordem e impunha os castigos aos transgressores.

Além da sua finalidade principal, que era o comércio, os mercados funcionavam também como locais de execução de criminosos, e era neles que se realizavam as cerimónias finais de alguns ritos de iniciação, como os da puberdade, da entrada na seita secreta do Kipaxi e em certos feitiços especiais. Eram, além de tudo isso, como ainda hoje o são, os lugares de reunião predilectos, onde, à sombra tutelar ou nas imediações da figueira-brava (nzanda no falar quicongo) que fora plantada quando da sua criação, confraternizavam milhares de pessoas, ali atraídas não só pelas necessidades do comércio como também pelo natural desejo de convivência. Era nos mercados que se marcavam encontros, que se ouviam e transmitiam as novidades, que se entrava em contacto com as novas mercadorias e com novas ideias. Funcionavam como verdadeiros centros de difusão cultural.

Havia os de duas espécies : uns, centrais, servindo bastantes aldeias e que, pelo bulício, pela multidão que os animava, pela presença de indivíduos vindos de longe e pelo valor das transacções, muito se assemelhavam ás nossas feiras, e outros, mais pequenos, verdadeiramente locais, onde apenas se negociavam víveres e eram quase só frequentados pelas mulheres.

Os sistemas de negócio em vigor nos mercados foram variando com o decorrer dos tempos. A simples permuta primitiva cedo passou a coexistir com o emprego de moeda, representada primeiramente pelas conchas (nzimbu) e depois também missangas de vidro por nós introduzidas, por barrinhas de latão, por espingardas, por cobertores, por medidas certas de tecido e por fim, já no final do século XIX, por dinheiro nosso ou do Estado Independente do Congo. Actualmente todas as transacções são realizadas a dinheiro.

Continua (Mercados da Damba e do Zombo)

 

 

                                                                               Em colaboração com ARTUR MÉNDES

 

 

 


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